A Guerra Dos Mundos - H. G. Wells

Arquivo Pessoal

 


Ninguém teria acreditado, nos últimos anos do século XIX, que este mundo era atenta e minuciosamente observado por inteligências superiores à do homem e, no entanto, igualmente mortais; que, enquanto os homens se ocupavam de seus vários interesses, eram examinados e estudados, talvez com o mesmo zelo com que alguém munido de um microscópio examina as efêmeras criaturas que fervilham e se multiplicam numa gota d'água. Com infinito comodismo, os homens iam de um lado para outro do globo, cuidando de seus pequenos afazeres, na pequena segurança de seu império sobre a matéria. É possível que os infusórios sob o microscópio façam o mesmo. Ninguém cogitava que os planetas mais antigos do espaço pudessem ser fontes de perigo para a Humanidade, ou, se eles eram objeto de reflexão, era apenas para descartar, como impossível e improvável, a ideia de vida nesses mundos. É curioso relembrar alguns dos hábitos de pensamento desses tempos distantes. No máximo, os terráqueos fantasiavam que poderia haver outros homens em Marte, talvez inferiores a si próprios e dispostos a acolher uma expedição missionária. No entanto, através do abismo do espaço, mentes que em relação à nossa são como a nossa em relação às dos animais que perecem, intelectos vastos, frios e insensíveis, lançavam sobre este planeta olhares invejosos e, lenta e inexoravelmente, traçavam planos contra nós. E, no início do século XX, veio a grande desilusão.

Primeiro parágrafo do Capítulo 1




📚 Dados Técnicos

Título original: The War of the Worlds
Ano de lançamento do original: 1898
Tradução: Thelma Médici Nóbrega 
Ano de lançamento desta edição: 2016
1ª edição 
7ª reimpressão (fevereiro de 2025)
Rio de Janeiro
Selo: Suma de Letras
Editora: Companhia Das Letras
312 páginas


✍🏾 Sinopse

Eles vieram do espaço. Eles vieram de Marte. Com tripés biomecânicos gigantes, querem conquistar a Terra e manter os humanos como escravos. Nenhuma tecnologia terrestre parece ser capaz de conter a expansão do terror pelo planeta. É o começo da guerra mais importante da história. Como a humanidade poderá resistir à investida de um potencial bélico tão superior? 

Publicado pela primeira vez em 1898, A guerra dos mundos aterrorizou e divertiu muitas gerações de leitores. Esta edição especial contém as ilustrações originais criadas em 1906 por Henrique Alvim Corrêa, brasileiro radicado na Bélgica. Conta também com um prefácio escrito por Braulio Tavares, uma introdução de Brian Aldiss, membro da H. G. Wells Society, e uma entrevista com H. G. Wells e o famoso cineasta Orson Welles - responsável pelo sucesso radiofônico de A guerra dos mundos em 1938 -, que fazem desta a edição definitiva para fãs de Wells.


 ⚖️ Créditos da Sinopse: Companhia Das Letras


Arquivo Pessoal 


Inomináveis Saudações a todas e todos vós, Seres Do Mundo! 

Em uma semana, conclui a leitura deste sensacional clássico da Literatura Mundial. Uma semana de concentração e atenção para com uma narração peculiar e direta como um discurso que não perde tempo buscando subtramas desnecessárias. De um jeito reto, direto e claro, senhor de uma concisão grandiosa no modo como narra uma história, Herbert George Wells (1866-1946) modelou obra-prima clássica que antecedeu muitos escritos da Ficção Científica, agindo diretamente no âmago do problema principal que apresenta no livro: o de uma invasão alienígena à Terra e a luta pela sobrevivência diante de seres cruéis e interessados apenas em exterminar a Raça Humana para propósitos que o desenvolvimento do livro nunca responde diretamente. Mesmo não guiando o leitor para os reais objetivos dos invasores, o enredo da obra joga pistas no modo como o narrador e demais Personagens de destaque interpretam a situação que tomou conta da região na qual residem. Um narrador inominável guia todo o ato de leitura e é pelos olhos dele que, em alta tensão, nervosismo e angústia, assistimos a uma luta contra inimigos superiores tanto em inteligência quanto em Ciência e Tecnologia.

Uma particularidade importante do livro, que deve ficar bem clara para qualquer pessoa que o ler, está no fato de que o narrador identifica os invasores como marcianos sem ter qualquer base de apoio que corrobore essa informação. Wells é genial nesse ponto ao reproduzir a crença na época de que Marte era um planeta habitável, algo compartilhado amplamente entre as pessoas que se interessavam por Astronomia na época em que o livro foi publicado (final do Século XIX). Como os alienígenas não se comunicam do modo como os humanos se comunicam, não há diálogo entre eles que possa revelar a verdadeira origem de sua Espécie. Da parte do narrador e demais Personagens, os “marcianos” eram assim identificados porque a situação é tão absurda que não há tempo, a cada página da obra, para que se raciocine direito acerca da verdadeira origem dos inimigos. O espaço para raciocínio de um homem letrado, envolvido com a Filosofia, é o que temos ao longo de cada página. E isto, ao mesmo tempo, é limitado e minuciosamente descritivo de particulares visões acerca dos alienígenas. Wells entra nessa brincadeira e denomina o Livro I como A Chegada Dos Marcianos. 

A limitação diz respeito ao espaço onde a invasão ocorre, limitado a Londres e algumas cidades no entorno desta, próximas ou distantes. Um pequeno pedaço da Inglaterra é o palco de batalha de uma mínima parte da Humanidade. O livro não confirma e nem relata algo acerca do fato de que outros países tenham sido invadidos, nem há ao final a menção do narrador em relação ao que ocorreu com o restante do planeta durante os ataques inimigos no país dele. O Livro II intitula-se A Terra sob o domínio dos Marcianos, mas quais partes da Terra foram dominadas durante o período dos acontecimentos que sucederam-se na Inglaterra? Não creio estar certo no que escreverei a seguir, mas Wells pode muito bem ter instigado os leitores de sua época e os do futuro a serem guiados pela imaginação na montagem de situações, ocorrências e lutas pelo mundo afora. Para mim, grande parte da Genialidade do livro se apresenta como uma indução silenciosa que faz quem lê avançar na leitura em si muito além do que foi escrito. O autor, no entanto, aparentemente conta a sua história com um único ponto de apoio situado no modo de não se submeter, em momento algum, a diminuir o ritmo de cada acontecimento. 

A minuciosidade descritiva do que ocorre em uma pequena parte das ilhas britânicas e de um determinado grupo de alienígenas faz do livro também uma peça dramática e de suspense irresistíveis. Do ponto de vista de um leitor de Ficção Científica, eu escrevo a partir da imersão que a leitura provocou em mim. Percebi a minuciosidade científica, por assim dizer, no modo como o narrador sem um nome descreveu as reações das pessoas em seu redor; e até mesmo na narração do que ocorrera com o irmão dele, em Londres, longe de onde ele estava, há a preocupação de ter um pouco de minuciosidade ao descrever cada ação do mesmo e das circunstâncias a este inerentes. Na descrição dos alienígenas, há uma preocupação em querer ao máximo ser didático, o que acaba por tornar aqueles seres mais perigosos e cruéis do que são. Não apenas na aparência, mas também no comportamento de total desprezo para com a vida humana, aqueles seres são descritos como superiores e repulsivos, ao mesmo tempo. Transparece uma certa admiração do narrador pelos recursos tecnológicos que os “marcianos” utilizam nos massacres e na montagem de estruturas de apoio bélico, é bem perceptível isto abaixo da camada de espanto, medo, asco e terror que toma conta dele. 

O estilo de Wells deixa a leitura bastante nervosa e tensa, como acima descrevi, tanto por mostrar o que realmente significa uma invasão brutal quanto pelo desespero das pessoas. Há também uma pequena amostra do quanto os seres humanos podem fazer quando acuados, encurralados, pressionados e buscando sobreviver a qualquer custo. O próprio narrador, sem vergonha ou arrependimento, conta o que fez a certa altura do livro para sobreviver sem se preocupar com as consequências. Um grande momento de sinceridade, como poucas vezes presenciei na Literatura vinda da parte de um Personagem que apresenta o seu ponto de vista em um livro, é retratado com muita naturalidade. Outras passagens, em aberto ou nas entrelinhas, falam mais do comportamento humano diante do inesperado ultraviolento de uma agressão extraplanetária do que desta própria em sua execução. O padre e o artilheiro, dois Personagens que também não são nomeados (assim como o irmão mais novo do narrador), representam duas distintas visões de mundo, duas antagônicas versões da realidade e duas reações alteradas de personalidades diante da combustão social causada pelo impiedoso ataque. É aqui que se encontra a essência de A Guerra Dos Mundos, que, em minha livre interpretação, vai muito além de um livro fundador de um subgênero no Gênero Literário Ficcional Científico. 

O pequeno Universo Mitológico que Wells organizou nesta obra, em verdade, dentro de minha interpretação, tem a dizer muitas coisas acerca de uma calamidade não-prevista a afetar diversos mundos particulares. Os microcosmos de cada pessoa afetada pela invasão são expostos ao amoral do macrocosmo, onde tanto o discurso religioso do padre quanto o discurso filosófico do narrador e o discurso militar do artilheiro são pulverizados por uma potência factual pesada e insuportável. Nos momentos de maior densidade na tensão do livro, tudo que se sabe acerca das coisas deste mundo desaparece diante da presença de entes de outro mundo com propósitos homicidas e da extirpação de recursos naturais terrestres para a própria sobrevivência. O microcosmo alienígena está baseado em apenas um propósito, enquanto que cada microcosmo humano está determinado a fechar-se em círculos que não aceitam fundir-se um um microcosmo com tendências macrocósmicas, o que é o caso dos alienígenas. Estes, exatamente por demonstrarem maior organização e unidade do que os humanos que atacavam, facilmente tiveram sucesso contra a Força Militar e arrasaram tudo pela pequena parte do país, incluindo a Capital, onde se concentraram.

O narrador, sem poder fazer nada além de contar o que observou durante a ocorrência de cada dia da invasão, é apenas uma figura impotente diante de algo muito maior. E não são os humanos que superam a ameaça, mas a própria Terra tem uma resposta que apenas lendo vocês poderão saber qual foi. Lendo como eu li ou não A Guerra Dos Mundos, leitora e leitor virtual, as suas próprias conclusões sobre o que sobrou da Humanidade após este acontecimento nela narrado serão as suas visões particulares. Está aqui a minha visão particular, onde li cada passagem com muito mais do que as letras tem a dizer, algo que sempre faço quando leio até mesmo textos acadêmicos do meu Curso de Biblioteconomia. A Humanidade dentro deste Universo Mitológico aprendeu alguma coisa, mas o último capítulo do livro não dá esperanças quanto à construção de uma “Nova Humanidade que se unirá em direção a um futuro sem guerras planetárias a fim de uma união contra futuras outras invasões alienígenas”. Não, isto não ocorreu e Wells, mesmo que não tenha escrito diretamente isso, me guiou desde a primeira página em direção a esta minha observação. 

Um livro brilhante, sinistro e magnífico é este, senhoras e senhores. A sensação, a todo momento, de que uma invasão extraterrestre seria exatamente como é narrado nele tomou totalmente conta de mim. Em muitos momentos, a leitura foi assustadora e isto comprova o porquê da essência de um livro ser considerado um clássico. A Guerra Dos Mundos, atualíssimo em mensagens para toda a Humanidade, é toda uma descrição de algo que já ocorreu, ocorre e ocorrerá muitas vezes na História Terrestre. A única diferença é que os invasores não eram, são e serão marcianos, venusianos, plutonianos, lunares ou quaisquer outros indivíduos extraterrestres. 

Saudações Inomináveis a todas e todos vós, Seres Do Mundo!



H. G. Wells 




Capa do meu exemplar

Contracapa do meu exemplar 



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