Esta Dor que me Faz Bem - Fernanda de Castro

 

Foto de Nik Bagherzadegan no Unsplash

As coisas falam comigo

uma linguagem secreta

que é minha, de mais ninguém.

Quem sente este cheiro antigo,

o cheiro da  mala preta,

que era tua, minha mãe?


Este cheiro de além-vida

e de indizível tristeza,

do tempo morto, esquecido...

Tão desbotada e puída

aquela fita escocesa

que enfeitava o teu  vestido.


Fala comigo e conversa,

na linguagem que eu entendo,

a tua velha gaveta,

a vida nela dispersa

chega à cama onde me estendo

num perfume de violeta.


Vejo as tuas jóias falsas

que usavas todos os dias,

do princípio ao fim do ano,

e ainda oiço as tuas valsas,

minha mãe, e as melodias

que cantavas ao piano.


Vejo brancos, decotados,

os teus sapatos de baile,

um broche em forma de lira,

saia aos folhos engomados

e sobre o vestido um xaile,

um xaile de Caxemira.


Quantas voltas deu na vida

este álbum de retratos,

de veludo cor de tília?

Gente outrora conhecida,

quem lhe deu tantos maus tratos?

Serão todos da família?


Ai, vou fechar na gaveta

a lembrança dolorosa

dos teus laços de cetim,

dos teus ramos de violeta,

do leque de seda rosa

com varetas de marfim.


As coisas falam comigo

numa linguagem secreta,

que é minha, de mais ninguém.

Quero esquecer, não consigo.

Vou guardar na mala preta

esta dor que me faz bem.