(...) A mediocridade é própria da mente vulgar, da mente estreita, limitada. Em regra, a mente vulgar está interessada nas coisas imediatas; e as coisas imediatas podem ser projetadas para o futuro, mas continuam a ser 'as coisas imediatas'. Os políticos, ainda que se interessem pelo futuro, estão realmente interessados no 'imediato', em relação com o futuro. A maioria de nós também está interessada nas coisas imediatas — a 'perspectiva curta' em vez da 'perspectiva longa' — nossa vida está circunscrita aos interesses imediatos. Isto não significa que o imediato não seja importante; mas, se ele se torna de suma importância e nos esquecemos totalmente da 'perspectiva longa', então a imediata preocupação pelo pão de cada dia — a maneira de viver, o marido, a mulher, os pensamentos banais — esta 'perspectiva curta', limitada, estreita, conduz à aflição, conduz ao sofrimento e à luta. E a mente vulgar, medíocre, sempre se devota a um certo movimento, uma certa crença, um certo dogma. É da natureza da mente medíocre o pertencer a alguma coisa. É da natureza da mediocridade, hoje tão generalizada no mundo, o interessar-se exageradamente pela sociedade. (...)
in: pags. 147-148
👨🏾💻Dados Técnicos
Título original: Talks by Krishnamurti in India
Ano de publicação do original: 1962
Tradução: Hugo Veloso
Editora Cultrix Ltda.
São Paulo
1976
256 pags.
✍🏾Sinopse
"É absolutamente necessário e urgente alterar de todo o curso do pensamento humano, da existência humana que se está tornando cada vez mais mecanizada. E não vejo como operar essa completa revolução a não ser individualmente. O 'coletivo' não pode ser revolucionário; o coletivo só é capaz de seguir, ajustar-se, imitar, submeter-se. Mas só o indivíduo — vós — pode romper as muralhas, destroçar todos esses condicionamentos, e se tornar, assim, criador." Estas palavras, tiradas do texto inicial de A MUTAÇÃO INTERIOR, dá o tom geral deste volume, que reúne uma série de palestras feitas por Krishnamurti na Índia e nas quais ele aborda temas cruciais como o poder da dúvida, o percebimento criador, o ver completo, a questão da simplicidade, os fatores da mutação, a transformação interior, etc."
⚖️Créditos da Sinopse: Editora Pensamento-Cultrix
Inomináveis Saudações a todas e todos vós, Seres Do Mundo!
Mudar o mundo tem sido uma falácia antiga e irrisória, dotada mais de utopia do que realidade sólida, típica dos sonhadores de todas as tendências ideológicas, religiosas e de Livre-Pensamento. Ideologias nunca salvarão este mundo, elas apenas servem para que as naturais prepotência e arrogância humanas sejam parte da falsa ideia de que aquele nos pertence "por direito". Religiões nunca salvarão este mundo, elas apenas funcionam como papel higiênico para que os rabos dos culpados e dos inocentes sejam limpos após defecarem tudo de podre que é Ser Humano naquele. O Livre-Pensamento é o mais ridículo de todos os supostos "movimentos da grande capacidade intelectual humana" que tentam em seus dialéticos vazios remendos encontrar o modo certeiro e infalível de realizar qualquer grande mudança no mundo. Eu me julgo um "Livre-Pensador" e tenho o direito de incluir a mim mesmo entre os sonhadores que tentam mudar o mundo quando nem mesmo eles mesmos ou aqueles aos quais se dirigem sequer mudam. Em postagens anteriores sobre livros de Jiddu Krishnamurti aqui no blog, eu o denominei como um "Livre-Pensador"; entretanto, ele está acima de um termo tão reducionista. Não o endeuso, nem o ponho em um pedestal ou considero-o um "Mestre". Mestres também não servem para nada, Krishnamurti apenas tem me influenciado bastante nos últimos tempos de um modo explosivamente contundente. E o que ele diz nos registros das palestras que compõem A Mutação Interior é demolidor de toda hipócrita falácia de quem tocou no assunto da mudança do mundo antes e após ele. O livro é uma verdadeira porrada na alma e cada palavra tem o compromisso visceral de dolorosamente abrir feridas para que os leitores possam ser levados a sérias reflexões para os seus propósitos.
De 1⁰ de janeiro a 13 de março de 1962, as palestras foram dadas nas cidades indianas de Varanasi, Nova Deli e Bombaim. Muito objetiva e claramente, cada exposição de ideias e choques de realidades parecem ter sido escritos neste ano de 2022. Cada palestra tem exatamente sessenta anos de idade, são notavelmente atemporais porque os problemas humanos continuam sendo a principal forma contrária ao efetivo poderio de uma verdadeira mudança no mundo. Antes de escrever nesta noite de domingo a presente Resenha, li até a metade uma reportagem da BBC sobre o Kwichon, um movimento de parte da população sul-coreana que está saindo das grandes metrópoles para residir no campo. Respeito as pessoas em si e compreendo as razões de cada uma que, seja na Coréia do Sul ou aqui no Brasil ou em qualquer outro país do mundo, se mudem para o campo buscando uma qualidade de vida melhor. Porém, mudar da cidade para o campo se resume a apenas se deslocar fisicamente para um outro tipo de prisão, sendo esta a ilusão de que a maior proximidade com a natureza resulta em uma melhor condição existencial no sentido psíquico. Há aqueles que bradam acerca da mudança geográfica como se tivessem alcançado um "Nirvana" ao conseguirem adquirir um pedaço de terra campestre. Isto é apenas ilusão, mudar de um lugar para o outro, respirar um ar mais puro e estar em contato com o verde em sua bruta forma não trabalho o abismo que é a fossa humana das falhas e fissuras carregadas por todos. Em cada transcrição presente neste livro, de modo direto e indireto, nas entrelinhas ou abertamente exposto, Krishnamurti se refere a este típico comportamento dos que se iludem por medo de encararem o que interiormente deve ser mudado.
A estrutura demonstrativa do que deve ser verdadeiramente modificado segue a cada palestra uma linha organizada de pensamentos que não são jogados leve ou aleatoriamente. Cada discurso acrescenta tudo ao que o antecedeu e vai abrindo espaço para outras meditações, estas dependendo do quanto o Ouvinte está disposto a assimilar das palavras do Orador. Assim estão divididos os capítulos, nomeados pelos títulos de cada palestra:
DESTEMOR MENTAL (Varanasi — I)
O PODER DA DÚVIDA (Varanasi — II)
DO CONFLITO (Varanasi — III)
PERCEBIMENTO CRIADOR (Varanasi — IV)
COMPREENDER A VIDA (Varanasi — V)
O PROCESSO DO PENSAMENTO (Varanasi — VI)
NEGAR O FALSO (Varanasi — VII)
DA TRANSFORMAÇÃO INTERIOR (Nova Deli — I)
OS OBSTÁCULOS PSICOLÓGICOS (Nova Deli — II)
OS FATORES DA MUTAÇÃO (Nova Deli — III)
A ESSÊNCIA DO SOFRIMENTO (Nova Deli — IV)
RELIGIÃO (Nova Deli — V)
MEDITAÇÃO (Nova Deli — VI)
MORRER PARA O PASSADO (Nova Deli — VII)
LIBERDADE E AMOR (Nova Deli — VIII)
O VER COMPLETO (Bombaim — I)
NÃO CONFIAR EM NADA (Bombaim — II)
DA MENTE NÃO INFLUENCIADA (Bombaim — III)
A ORIGEM DO MEDO (Bombaim — IV)
INDOLÊNCIA E AUTOCOMPAIXÃO (Bombaim — V)
QUANDO SURGE O AMOR (Bombaim — VI)
LIBERTAÇÃO DA EXPERIÊNCIA (Bombaim — VII)
A QUESTÃO DA SIMPLICIDADE (Bombaim — VIII)
Notavelmente, este é o mais tenso dos livros de Krishnamurti que já li até hoje. Há transcrições de perguntas do público e de respostas do palestrador quando os discursos se encerram e em muitos momentos um conflito se estabelece. Quando falo em conflito, me refiro à tensão entre ouvintes que não compreenderam bem as palavras de Krishnamurti e a necessidade deste de não entregar de pronto todas as respostas que aqueles queriam ouvir. Tanto ontem quanto hoje, para muitos é bem difícil compreender o pensamento krishnamurtiano no que este possui de introduções a determinados tipos de reflexões que exploram toda forma nada convencional de conduzir qualquer um para uma seríssima reflexão acerca de si mesmo. Por causa disto que é dificílima a Mutação Interior e a Transmutação se encontra ainda infinitos quilômetros distante do alcance da nossa limitadíssima capacidade reflexiva atual, acrescento aqui uma visão pessoal. Podem ter se passado sessenta anos, mas uma falta de Verdadeira Compreensão do poder capital relacionado a qualquer mudança no modus operandi do exame individual do próprio Ser ainda transita entre os agentes e pacientes desta Humanidade. Os agentes que desejam mudanças no sistema mundial. Os pacientes que aguardam tais mudanças. Ambas as categorias humanas sequer percebem que a mudança primeira tem que partir de um interior que muito se fecha em torno de mesquinharias, mediocridade e egoísmo. A grande maioria humana está cega, surda, muda e embrutecida; e eu, tão imperfeito quanto vocês ou qualquer pessoa que conheçamos, me posiciono dentro dessa mesma panela torta de imperfeições. A entidade humana, isto que socialmente somos, nada mudou e longe está de mudar.
Concluo a presente Resenha em um dia estranho de uma época muito estranha para um mundo igualmente estranho. As diversas turbulências causadas pela Raça Humana, divididas em diversos motivos para ocorrerem, sacodem o mundo de várias maneiras. A Mutação Interior é um registro de palavras proferidas verbalmente que não foram compreendidas em sua época e nem hoje o são. As cinzas desta Desgraça Contemporânea não permitem enxergar todo o fim de cada humano passo em direção à social destruição em cada sentido da nossa fragilíssima Civilização. Ainda não saímos do berçário entre as Humanidades que habitam este Universo.
Saudações Inomináveis a todas e todos vós, Seres Do Mundo!
(...) É possível a mente libertar-se de toda influência? Compreendeis, senhor, o que é influência? — a palavra, a família, vossa esposa, vosso marido, os livros que ledes, as coisas que, inconscientemente, vós assaltam a mente. Podeis estar cônscio de cada influência, cônscio sem escolha — simplesmente cônscio de cada influência que vos cerca? É possível isso? Porque, se fordes livre, se puderdes observar a influência, isso vos aguçará a mente, tornando-a capaz de libertar-se dela. Esta é uma matéria complexa, que exige atenção, que exige toda a vossa capacidade de pensar e descobrir, porque sois o resultado de influências. Ao crerdes ser o 'Eu Superior', etc., ao dizerdes que em vós habita Deus, a Divindade, o Atman — tudo isso representa influência. Quando o comunista diz não crer em Deus, está também influenciado.
Portanto, a vida de todos está sujeita a influências. E é possível libertarmo-nos totalmente delas? Do contrário, não importa o que penseis, o que negueis, o que façais — tudo resultará do passado, do vosso condicionamento; por conseguinte, em tais condições, não pode a mente, de modo nenhum, descobrir se existe a Realidade. Assim sendo, é possível ficar-se livre da influência? O que, com efeito, significa: É possível ficar-se livre da experiência? Chegaremos a este ponto mais adiante. Por certo, não é possível ficarmos livres de todas as influências. Só podeis ficar livre daquelas de que estais cônscio. Mas só podeis estar cônscio de um pequeno número de influências — pois o inconsciente está de contínuo a ser influenciado."
in: pag. 201




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