(...) — Isto é uma rocha; tolk na Língua Verdadeira — disse, olhando gentilmente para Ged. — Um fragmento da pedra de que é feita a Ilha de Roke, um pedacinho da terra seca em que vivem os humanos. É o que é. Faz parte do mundo. Com a Ilusão da Mudança, você pode fazer com que ele se pareça um diamante, ou uma flor ou uma mosca ou um olho ou uma chama. — A rocha assumiu cada uma dessas formas, conforme ele as nomeava, e voltou a ser rocha. — Mas isso é mera aparência. A ilusão engana os sentidos do observador; faz com que ele veja, ouça e sinta que a coisa mudou. Mas a ilusão não muda a coisa. Para transformar esta rocha em uma pedra preciosa, você precisa mudar seu verdadeiro nome. E fazer isso, meu filho, mesmo com um fragmento tão pequeno do mundo, é mudar o mundo. Pode ser feito. Pode, de fato, ser feito. É a arte do Mestre Transformador, e você a aprenderá quando estiver pronto para aprendê-la. Mas você não deve mudar uma coisa, seja uma pedra, um grão de areia, até que conheça o bem e o mal que resultarão desse ato. O mundo está balanceado, em Equilíbrio. O poder de um feiticeiro para a Transformação e a Invocação pode abalar o equilíbrio do mundo. É perigoso esse poder. Muito perigoso. Deve seguir o conhecimento e servir à necessidade. Acender uma vela é lançar uma sombra…”
Mestre Mão
in: pags. 54-55
Título original: A Wizard of Earthsea
Ano de lançamento do original: 1968
Tradução: Heci Regina Candiani Ano de lançamento desta edição: 2022
1ª edição
São Paulo
Editora: Morro Branco
Grupo Alta Books
208 páginas
Acender uma vela é lançar uma sombra…
Terramar é um mundo mágico quase inexplorado, formado por centenas de ilhas que apresentam, cada uma à sua maneira, vislumbres de poder e mistérios. Magos, bruxas e criaturas míticas povoam esse extraordinário arquipélago.
Em O feiticeiro de Terramar, primeiro volume da saga, acompanhamos Ged, um jovem feiticeiro que busca descobrir seu caminho em meio às incertezas e às imprudências da juventude. À medida que a magnitude de seu poder é revelada, a harmonia do mundo e as leis da magia são colocadas à prova: nenhum homem deve alterar o equilíbrio entre a vida e a morte.
Agora, o feiticeiro precisa iniciar a jornada que o apresentará às grandiosas palavras de poder, o fará encarar dragões ancestrais, navegar por mares desconhecidos e atravessar os portões da morte, para enfrentar a sombria criatura que ameaça não só Ged e Terramar, mas os tênues limites entre luz e escuridão.
Aclamada como uma das melhores séries de fantasia de todos os tempos e ganhadora dos principais prêmios, como Locus e Hugo, a obra de Ursula K. Le Guin, que se tornou referência e inspiração para a literatura fantástica mundial, chega agora em versão definitiva com ilustrações do inigualável Charles Vess.
“A magia de Terramar é primordial; as lições de Terramar continuam tão potentes, tão sábias e tão necessárias quanto seria possível de imaginar.” — Neil Gaiman, autor de Sandman
“Se Terramar é uma das construções de mundo mais bem-escritas da literatura de fantasia, ela é também uma das mais cerebrais. Em seu cerne reinam questões como a moralidade, a identidade e o poder.” — David Mitchell, autor de Atlas de nuvens, para o The Guardian
“[…] criar algo com força imaginativa o suficiente para tocar naquelas profundezas arquetípicas em que as crianças se sentem em casa e, ao mesmo tempo, manter uma simplicidade narrativa na qual mentes jovens serão capazes de acompanhar, não é algo fácil de se fazer.” — The New York Times
⚖️ Créditos da Sinopse: Alta Books
Inomináveis Saudações a todas e todos vós, Seres Do Mundo!
O meu interesse por Magia, Ocultismo, Feitiçaria e assuntos correlatos não é um mistério, permeando grande parte da minha Escrita, com ênfase na poética que desenvolvo. Como relatado na Postagem O Meu Retorno Ao Blogger, o meu interesse no campo da Espiritualidade é bem amplo e vasto, como Thelemita, Neopagão e Espiritualista, como me vejo. Entretanto, não saio por aí fazendo proselitismo acerca das minhas crenças, nem tento converter ninguém para o que eu sigo e acredito, cultuo e toco, no âmbito espiritual. Estou totalmente focado dentro de Thelema, do Neopaganismo e do Espiritualismo, mas quando me perguntam o que eu sou e matéria de crença, na imensa maioria das vezes sempre respondo que sou apenas um Estudante. Como Estudante, me deparo com livros, artigos, textos de sites e textos de blogs sobre os mais diversos assuntos dentro dos meus interesses espiritualistas. Explicando um pouco acerca de mim e do que acredito no campo espiritual, posso declarar, com toda a certeza que adquiri após anos de Estudo nos assuntos que citei, que este livro, O Feiticeiro de Terramar, carrega em si tudo que já estudei em livros especializados no desvelar dos caminhos místicos e ocultistas. A Autora, Ursula Kroeber Le Guin (1929-2018), estadunidense, até onde eu sei, não se envolveu com Iniciações em Ordens e nem desenvolveu um Sistema Mágicko próprio a partir do material mais profundo em simbolismos de toda a sua obra. Tendo sido ou não Iniciada, a fascinante história de Gavião/Ged me conquistou poderosamente com sua aura e atmosfera profundamente entranhadas em puro Conhecimento Oculto.
O livro foi lido como parte da Leitura do Mês do Liber Club, do qual eu sou um participante, parte do Projeto de Extensão da UNIRIO PET Biblioteconomia (estudo neste Curso na referida Universidade). Indo muito além da expectativa por se tratar de um livro de Alta Fantasia, um Gênero Literário (ou Subgênero?) que sempre me fascinou, fui arrebatado por uma narrativa repleta de significados diretos e indiretos que falam profundamente ao meu Ser. Le Guin revolucionou, de um modo peculiar e corajoso, o estado de coisas literário quando lançou em 1968 esta obra. Um dos motivos está no fato do próprio Protagonista ser negro, assim como a grande maioria dos Personagens que surgem neste primeiro livro (de uma Saga denominada Ciclo de Terramar, composta por mais cinco livros, nesta ordem: As Tumbas de Atuan, A Última Margem, Tehanu, Contos de Terramar e O Outro Vento). O fato, por si só, já é um ato de extrema criatividade e inovação, o que é contado por ela mesma no Posfácio com uma maturidade intelectual firme e convicta da escolha literária que optou por seguir. Ela foi contra toda uma corrente de obras da época que publicavam livros tendo como todos os quase todos os Personagens como caucasianos. Mas, não quero aqui nesta Resenha e nem em futuras sobre os livros dela, compará-la com os demais Autores e Autoras da época de lançamento deste primeiro livro da Saga que é considerada a obra-prima dela. Quero aqui focar exclusivamente no livro em si e no que a Escrita dela desenvolveu com precisão narrativa absolutamente impecável.
Essa precisão define com facilidade o Universo Mitológico de Terramar. O livro traz um mapa do mundo criado por Le Guin, um arquipélago constituído por diversas ilhas e ilhotas, 70% água e 30% terra. A Magia é algo comum e corriqueiro nas cidades, com os habitantes nutrindo imenso respeito pelos Feiticeiros e Magos. Cada uma possui um Iniciado na Escola de Magia da Ilha de Roke como Guardião contra Forças Obscuras, sejam estas humanas ou não. Durante o livro, diversas façanhas ilusionistas, transfigurações e técnicas xamânicas são ensinadas e praticadas como comuns ao aprendizado recebido. Ged, conhecido anteriormente como Duny em sua terra natal, a aldeia Dez Amieiros da Ilha de Gont, cresceu selvagemente, sem ter conhecido a mãe e recebendo pouca atenção dos únicos parentes perto dele, o pai e a tia que lhe ensinou o básico em Feitiçaria. Após ajudar com esta à aldeia contra uma invasão de Piratas Kargs, do Império Kargad, ele quase foi exaurido totalmente. Um Mago famoso formado em Roke, Ogion, O Silencioso, surgiu na ilha e salvou o menino, tratando com os familiares dele acerca de guiá-lo a partir daquele momento nos campos da Magia porque a criança possuía um imenso potencial dentro dela. Nomeando-o verdadeiramente como Ged, ele o levou para onde residia, o povoado de Re Albi. Até a adolescência, ele foi aprendiz de Ogion e decidiu por conta própria, após um primeiro incidente que teria um desenvolvimento muito mais sombrio futuramente, que Roke seria o melhor caminho para ele em sua Trajetória Mágicka. Foi em Roke que ele ascendeu como Estudante com o passar do tempo e, também, foi onde caiu por algo nomeado que sempre obscurece cada um que se dedica à Grande Arte: a vaidade.
Outro ponto muito diferente deste livro de Alta Fantasia em relação a outros, é que o conflito principal não é uma guerra ou uma imensa missão para salvar todo um mundo de uma grande ameaça. Le Guin escolheu um caminho de análise psicológica e existencial do Personagem Principal, Ged, antes, durante e após aquela consequência do incidente acima citada. A vaidade, junto com o orgulho e o ego, são o que abrem caminhos dos mais desfavoráveis para quem estuda e pratica a Magia. O autocontrole, a busca pela harmonia e o alcance de um equilíbrio são as características fundamentais de quem está nesse caminho. Sem tais requisitos, toda jornada mágicka é obscurecida pelas sombras da personalidade, do temperamento e do comportamento ligados aos mais baixos sentimentos. Ged encontra em Roke duas pessoas que enaltecem nele os aspectos positivos e negativos dos sentimentos: em Jero, encontrou o melhor amigo que fez enquanto aluno em Roke; em Jasper, um rival que, pouco a pouco, passou a odiar e a invejar em certa medida. Dando maior importância ao lado negativo de seus sentimentos, também se ergueu nele uma certa arrogância, o que precipitou a queda que quase o vitimou é liberou no mundo de Terramar algo que não era para estar presente no mesmo. Tudo isto motivado por uma rivalidade estupidamente desenvolvida contra alguém que não lhe era rival em nada, posto ser Ged o melhor dos alunos em Roke. Não posso contar aqui acerca de detalhes da trama e nem sobre outros Personagens afetados diretamente pelo grande erro cometido por Ged, erro este constituinte do desafio a ser superado por ele mesmo. O que posso contar aqui é que ele conseguiu relativamente se reerguer, conseguiu tornar-se um Feiticeiro e partiu de Roke para tanto exercer o ofício de Guardião na ilhota de Baixo Tornel. O grande feito que ele consegue aqui vocês saberão lendo o livro; entretanto, o maior feito dele, a luta pessoal contra o perigo que ele mesmo modelara, representa o derradeiro desafio que Le Guin estabeleceu como o conflito maior de tudo no livro.
Um fator que muito me impressionou nesta obra foi a importância dada ao peso de um nome. Eu, que utilizo o Pseudônimo Inominável Ser desde o ano de 2006, de um modo muito particular, fui tocado pela história de um modo total. Meu objetivo com esse Pseudônimo, inicialmente, era não ser identificado por parentes, vizinhos e colegas de Universidade (eu cursava, então, Filosofia na UFRJ) como o autor dos textos dos meus primeiros blogs na Internet, no falecido Windows Live Spaces: Sobre Filosofia E Poesia E Música E Magia E Mundo e Cova Abismal De Poemas Sombrios. Inominável Ser significa alguém que, ao inibir sua verdadeira identidade ao escrever, consegue captar a essência de tudo que surge nas letras sem perder, ao mesmo tempo, a própria identidade. Em 2026, vinte anos após o nascimento do Inominável Ser nos mundos virtual e real, já não vejo necessidade de esconder o meu rosto e nem o meu nome civil. Entretanto, o meu Pseudônimo se tornou, sem que eu planejasse, um Nome de Poder inseparável da minha própria identidade e Ser, mas não é o meu Verdadeiro Nome, assim como o meu nome civil, Giovani Coelho de Souza, também não o é. O Conhecimento do Verdadeiro Nome dos Seres e das Coisas concede a quem o obter o Poder Total sobre o(a) Portador(a) de dito Nome. Este é o princípio oculto, conhecido e reconhecido dentro de todas as Tradições Iniciáticas, trabalhado por Le Guin da primeira à última página de O Feiticeiro de Terramar. Quem leu o livro e está se deparando aqui neste blog com esta Resenha, sabe que a chave para a resolução do verdadeiro problema na história está no encontro do Verdadeiro Nome de Algo. Aos que ainda não leram o livro, sugiro que, caso se interessem na leitura dele, prestem atenção no cuidado e na insistência de Le Guin em mencionar com grande frequência o Nomear como um Ato Mágicko Maior de expressividade contundente e de intensa e imensa profundidade. É brilhante, totalmente brilhante, a maneira como ela alimenta a curiosidade do(a) leitor(a) com um crescente transformar de situações que guiam para uma conclusão muito lógica, plausível e consciente de si quanto a ser o desfecho perfeito para um livro narrado com grande perfeição.
A agradabilíssima leitura que tive ao folhear cada página do início da caminhada de Ged atrai toda a minha atenção em direção às demais obras desta Autora. As Tumbas de Atuan, o segundo livro do Ciclo de Terramar, pretendo adquirir ainda neste mês de junho. E, como este primeiro capítulo aqui resenhado, ao término da leitura, neste Mundo, ele será comentado.
Conheçam Ursula K. Le Guin, leitoras e leitores virtuais que, como eu, antes de 2026, jamais travaram qualquer contato com ela. A Escrita dela é algo que arrebata com muita alma e autenticidade.
Saudações Inomináveis a todas e todos vós, Seres Do Mundo!
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| Ursula K. Le Guin |





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