Alguns De Vocês Vivem Somente No Passado, Otakus?

Satoru Gojo só lhes observando...

 

Inomináveis Saudações a todas e a todos vós, Seres Do Mundo!


Estou escrevendo este texto um dia após concluir a maratona do Anime Clássico de Hokuto no Ken (as Resenhas serão escritas e publicadas no Memória Magazine, onde sou um dos Colunistas). Escrevendo como alguém que, apesar de ter crescido nos anos 80 e sobrevivido aos anos 90, não parou no tempo em termos de apreciação de Animes. Hoje, aos cinquenta anos de idade, eu sou um misto de alguém que valoriza tudo assistido no passado e não se prende a este com radicalismo, cegueira e falta de bom senso. Dentro desse misto do que eu sou em termos de apreciação artística, me envolverei no aspecto singular de falar aqui acerca do saudosismo como um malefício se for tratado de um modo extremo. Existe um saudosismo saudável, sim, isto eu não posso negar e o fato de eu assistir obras do passado, voltando para a época na qual eu cresci com tudo que chegou aqui no Brasil e com o que não foi exibido na Televisão, tendo a razão como disciplinadora dos meus gostos pessoais, é algo equilibrado. Eu sou, sim, um Otaku Fedido de profunda e inescapável estatura, cresci assistindo Animes, continuo assistindo Animes e morrerei assistindo Animes. Não importa a minha idade, nem a opinião de quem olha torto para mim na rua quando estou com as minhas camisetas de Jujutsu Kaisen; o mais importante é que eu me mantenho atualizado sempre, empolgado com lançamentos que chamam a minha atenção e sempre buscando assistir tudo que eu posso a fim de escrever as Resenhas deste Mundo e lá do Memória. 


A escrita de Resenhas, junto com a minha paixão pelos Animes, move grande parte da minha apreciação por estes. O título deste texto aqui, porém, me permite fazer uma analogia com um tipo de paixão que cega e atrofia as mentes de apreciadores(as) daqueles com a minha idade ou mais velhos ou mais novos. Pois, pessoas com quarenta ou trinta anos podem se enquadrar bem no tipo de Otaku chato que defende que apenas os Animes da época deles eram bons. Esse tipo de pessoa reclama de tudo hoje em dia, seja o Design de Personagens, a Trilha Sonora, o Roteiro e outros detalhes que, obviamente, são frutos das atualizações dos Estúdios de Animes conforme a nossa época. Culturalmente, essa indústria domina imensa parte do mercado do Entretenimento e faz parte da vida de bilhões de pessoas pelo mundo, demonstrando um poderio imenso e intenso no quanto tem ainda a evoluir em termos técnicos, visuais, históricos e tecnológicos. Por que uma Arte como esta deveria ter parado de evoluir desde a época na qual éramos crianças? Por que uma Arte com tantas variações e temáticas tem que, hoje, se adequar ao que os Fãs mais radicais dela propõem que devam ser as suas produções? Por que, especificamente, o passado deve fazer o presente e o futuro seguirem conforme as vontades de quem apenas vive naquele? 


Tomarei como um exemplo agora a mim mesmo. O Hokuto no Ken original e o recente Jujutsu Kaisen (cujo Especial fiz aqui no blog neste mês de agosto) são dois Animes separados por quase cinquenta anos. Usemos a sigla HnK para identificar o primeiro e JJK o segundo, facilitando assim a minha linha de raciocínio nas menções a eles que farei. O modo de contar uma história, em um Anime dos anos 80 como HnK e em um dos Anos 2010 como JJK, são verdadeiramente imcomparáveis hoje em dia. HnK modernizou os Animes Shounen (e traz muito do Seinen porque porta uma alta densidade dramática) e JJK (que não existiria hoje como um Shounen se HnK não estivesse estabelecido as primeiras bases contemporâneos desse Estilo de Anime, com um Seinen moderado em sua natureza dramática), devido à sua imensa popularidade nos dias atuais, é uma das felizes consequências da Revolução Artística promovida por aquele. Seria inútil comparar os dois porque cada um é o filho de sua época, mas ambos carregam personalidades próprias e consigo ver em JJK muitas abordagens em matéria de Roteiro presentes em HnK. Sendo filhos de suas respectivas épocas, é óbvio que suas atmosferas e desenvolvimentos refletem as  específicas visões de seus Produtores, Diretores e Roteiristas, homens e mulheres de suas próprias épocas. Um Anime é sempre um espelho do contexto histórico no qual nasce, com as suas referências e influências ecoando se examinados de um modo infindável em meticulosidade interpretativa, dissecando cada parte dele. Como 99% dos Animes, as produções animadas de HnK e JJK são adaptações de Mangás, com propostas diferentes em si e somente identificadas no ponto em comum de serem produtos de um mesmo Gênero. É possível gostar de ambos os Animes sem entrar em contradição ou conflito por causa disso, nem ficar fazendo comparações ridículas porque, repito, os contextos históricos dos nascimentos dos dois são profundamente heterogêneos. Considerar HnK superior a JJK por ser “de antigamente” ou defender que JJK é superior a HnK por ser “algo que fala melhor a língua dos jovens de hoje” torna-se, segundo esta minha análise, uma tolice que até me faz duvidar da inteligência de quem faz ambas as afirmações. 


É possível gostar de Neon Genesis Evangelion, Serial Experiments Lain, Yu Yu Hakusho, Saint Seiya, Shurato, Sailor Moon, Rei Artur, Patrulha Estelar, Dragon Ball, Tenchi Muyo, Guerreiras Mágicas de Rayearth, Street Fighter II Victory, Digimon, Pokémon, Yu-Gi-Oh e Oniisama E lado a lado com Hell”s Paradise, Gachiakuta, You And I Are Opposites, Yano-Kun’s Ordinary Days, Kimetsu no Yaiba, Hametsu no Oukoku, Record of Ragnarok, Vinland Saga, Uruwashi  no Yoi no Tsuki, Akame ga Kill, Tengen Toppa Gurren Lagann, Night Head Genesis, School Days e Frieren. Animes dos anos 80, 90, começo do Século 21 e mais recentes (assisti a todos os listados, os quais dou aqui como exemplos dentro da minha argumentação) que, muito diferentes entre si, podem conviver muito bem uns com os outros dentro do coração, da mente, da alma e da vida de um apreciador que não tem tendências fanáticas extremistas e ridículas. Eu sou este tipo de Otaku, alguém que não tem um Gênero preferido de Anime hoje em dia, mas que, em certa época dá vida, já deu preferência ao Shounen. Sim, eu gosto de lutinhas, mas Animes não são somente isso; HnK, que muitos homens que o assistiram chamam de “Anime de macho” (como se Animes tivessem um Gênero Sexual voltado para tendências masculinas ou femininas conforme a Genética ensina…), não é apenas lutinha; JJK, que parte da juventude Otaku de hoje em dia assiste e reclama bastante quando não tem muita lutinha em um episódio, também não é apenas lutinha; enfim, cada Anime que citei acima, tendo ou não lutinhas, não é apenas caracterizado por um ou outro elemento que o anuncie como possuidor de apenas uma natureza. A diversidade de possibilidades narrativas e a dinâmica fluidez de contar de diversas maneiras histórias dentro da luta do Bem contra o Mal ou de anti-heróis cinzentos entre o Bem e o Mal tornam cada experiência muito rico. Por que, então, se prender a apenas uma época ou um Gênero de Anime? Por que não é possível abrir a mente e apreciar tudo que é produzido dentro dessa Mídia? Por que reduzir e dividir esta entre o que era feito no passado (“antigamente é que era bom!”) do que é hoje produzido (“os Animes de hoje são uma merda!”)? 


Não pretendo aconselhar ninguém a abrir a mente e assistir o que não gosta, até porque o meu objetivo com este não é este. Eu apenas faço uma pergunta no título, que pode ou não alcançar as pessoas a ele destinadas. Somente observo, de minha parte, o que é fundamental porque este escrito possui natureza 100% opinativa, que o ridículo está em fazer a divisão entre o que foi, o que está sendo feito e o que ainda será feito na Indústria dos Animes. Maratonando hoje o início de Frieren, noto que a história, a cada episódio, trata da questão da passagem temporal, sendo a protagonista uma Elfa de mil anos de idade (ou mais, já que a Frieren não se importa muito, como os humanos, com tal passagem) que se modifica internamente, pouco a pouco, após a experiência de ter lutado dez anos ao lado de outros heróis contra o Rei-Demônio e suas Hordas. Frieren passa a compreender bem que cada época, cada contexto histórico, tem as suas particularidades e os fatos e ações das pessoas, junto com o que estas constroem, são bastante diferentes dos fatos e das ações do passado. Na forma sem pressa de se contar uma história, típica dos japoneses, esse belo Anime que me conquistou desde o primeiro episódio, tem muito a ensinar sobre adaptação às mudanças que surgem com as consequências do fluxo temporal. Em linha reta para alguns ou em curvas para outros, o Tempo, dentro e fora do contexto da obra Frieren, demanda o imperativo da adaptação. Não peço a ninguém que seja ortodoxo e parado no tempo que tente assistir Frieren porque, como não há nada acelerado ou feito na correria (como em Mushishi, outro Anime na mesma pegada e que pretendo continuar maratonando em breve), causaria sono aos mesmos. Também, como esses Otakus já tem uma opinião firme e não mudarão apenas porque eu ou outras pessoas, em blogs ou sites, escrevemos textos analíticos sobre o lado negativo de ficar apenas apegado ao passado, não adiantaria nada que assistissem. É todo um problema deles, o meu papel como Blogueiro está no fato de ter a minha opinião pessoal e, não, atacar por atacar, simplesmente, quem prefere ser eternamente um dinossauro por convicção e escolha próprias. Entendam como quiser esta minha última observação, mas saibam que a pergunta que dá título a este texto não se encerra em si mesma. 


Você pergunta porque não se encerra? Porque daqui a cinquenta anos ou menos, o mesmo tipo de Otaku ainda existirá; e, daqui a dez anos, quem hoje é fã de qualquer um dos Animes atuais de modo fanático, vai reclamar e atacar indiscriminadamente os que estarão em exibição. Não sei nem se estarei vivo até o final da próxima semana, não sou da mesma Espécie da Frieren e não desejo a Imortalidade para continuar me deparando com gente chata e retrógrada até o fim dos tempos… Somente sei que, com toda a certeza, se eu estiver vivo em 2036, com sessenta anos, estarei curtindo demais aos Animes da época, vibrando bastante e usando as camisetas de meus Personagens preferidos. Adaptação é sobrevivência, minhas caras e meus caros, apenas as múmias paralisadas nas areias temporais se deterioram em vida. Eu nunca chegarei a este estado no tocante à minha saúde mental apreciando a Arte dos Animes. E espero que você, leitora e leitor de bom senso que curte Animes e me leu até aqui, também não chegue. Deixemos os chatos com as suas chatices e apreciemos Animes com a tranquilidade de estarmos conectados à Contemporaneidade. 


Saudações Inomináveis a todas e a todos vós, Seres Do Mundo!




Até a Frieren se assusta com vocês, Otakus parados no tempo!