Crônicas Da Cinzenta Cidade - Oitava Crônica

 

Foto de Diana Titenko no Pexels 



Procuramos amor acima das cinzas para podermos realizar nossa ascensão evolutiva; encontramos apenas mais cinzas ainda. Procuramos as asas de Lúcifer acima das cinzas, asas que nos façam rebeldes contra toda sorte de cinzento acúmulo; encontramos apenas penas de celestes asas carbonizadas. Procuramos abrigo contra a cinzenta tempestade de cada dia dentro das curvas de todas as esquinas; encontramos apenas casas destelhadas cheias de água apodrecida. 


Procuramos avançar contra as cinzentas marés dos cinzentos oceanos das horas; encontramos apenas o afogamento mais inescapável nas praias do nosso ocaso como Espécie. Procuramos construções nada atingidas por cinzentos tiros que escapam de armas expostas acima das nossas cabeças; encontramos apenas armadilhas repostas nos lugares que passamos como desavisados transeuntes. Procuramos a benção de qualquer Deus acima dos cinzentos andares onde multidões oram desesperadas; encontramos apenas livros religiosos rasgados por sobre todo o interior de uma igreja destroçada. 


Procuramos descanso fora da cinzenta cama das dificuldades dos caminhos fechados, que se fecham e que ainda vão se fechar; encontramos apenas uma porta batida na nossa cara, um telefone desligado na nossa cara, um fora qualquer na nossa cara. Procuramos uma certeza apenas acima de toda cinzenta incerteza ancorada no cais de nossas embarcações pela cidade; encontramos apenas o antigo e contínuo desvelamento do que rasga toda a nossa alma. Procuramos uma destreza insinuante além de toda cinzenta barreira para que ultrapassemos leves e incólumes; encontramos apenas a facada no pescoço, a punhalada no coração e o cravar da lâmina de uma espada em nosso estômago cheio de toda merda que desde o nosso nascimento nele se acumula. 


Procuramos ouro, encontramos mais merda. 


Procuramos prata, encontramos muita merda. 


Procuramos diamantes, encontramos tesouros sujos de merda. 


Procuramos topázios, encontramos rasos buracos de infinita merda. 


E a cidade é uma merda? 


Somos nós a merda? 


Somos nós a cidade de merda? 


Isto é a cidade onde vivemos brutos. 


Isto é a cidade onde morremos absurdos. 


Isto é a cidade onde adoramos fajutos ídolos. 


Isto é a cidade onde louvamos o lixo. 


Isto é a cidade onde rompemos as barragens. 


Isto é a cidade onde instalamos nossas próprias prisões. 


Isto é a cidade onde poluimos a mente. 


Isto é a cidade onde escondemos o coração.


Isto é a cidade onde extinguimos a alma. 


A Cinzenta Cidade Dos Fracassados. 


A Cinzenta Cidade Dos Desmantelados. 


A Cinzenta Cidade Dos Desencontrados. 


E alimentamos as cinzas que nos fazem quebrados drones roboticamente adoentados. 


Inominável Ser 

CINZENTO 

CRONISTA 

INOMINÁVEL